Pastor Ademir Miliavaca
Publicado em 27/04/2026
Ao abrir a palavra em João 21 entendemos que há momentos em que obedecer parece injusto. Cumprimos tudo, buscamos, ofertamos, fazemos o devocional, e ainda assim a vida não parece responder como esperamos. É nesse cenário que o Espírito nos chama a ouvir: “Você me ama?” — e, diante dessa resposta, vem a ordem simples e profunda: cuidar, pastorear, amar e, acima de tudo, seguir. Não se trata de admiração, mas de entrega completa; não se trata de proximidade superficial, mas de um compromisso total, sem reservas. Somos chamados a sair de uma fé de conveniência para uma vida inteiramente disponível.
Quando ouvimos esse chamado, muitas vezes reagimos como Pedro: olhamos para o lado e perguntamos “e quanto ao outro?”. Surge a comparação, a tentativa de medir a própria caminhada pela vida alheia. Mas a resposta permanece ecoando: “o que te importa? Quanto a você, siga-me”. Seguir a Cristo é uma decisão individual, não depende do desempenho, da prosperidade ou da fidelidade de quem está ao nosso redor. Não depende se o justo parece sofrer ou se o ímpio parece prosperar. Cada um de nós tem uma identidade única diante de Deus, um relacionamento exclusivo, um caminho que não pode ser vivido por outro.
Há uma tendência de condicionar a própria obediência ao comportamento do outro: quando o outro mudar, então mudamos; quando o outro obedecer, então obedecemos. Mas isso revela um coração distraído, que deixou de olhar para dentro e passou a vigiar a vida alheia. Somos lembrados de que não fomos chamados para julgar, nem para nos comparar, mas para permanecer fiéis. Existe um juiz, e não somos nós; a própria palavra que foi anunciada julgará no último dia. Nosso papel é obedecer, amar, orar e permanecer firmes, ainda que pareça que nada está acontecendo no tempo presente.
A comparação adoece, corrói e desvia. Quando nos medimos pelos outros, perdemos o entendimento e nos afastamos do propósito. Cada um deve examinar a própria vida, carregar a própria responsabilidade e responder pessoalmente ao chamado de Cristo. Fomos chamados individualmente, seremos tratados individualmente e responderemos individualmente. Por isso, a ordem continua atual: não somos o outro, não vivemos a história do outro — somos chamados a seguir.
Se o caminho é difícil, se o momento é apertado, se a situação parece injusta, ainda assim a resposta permanece a mesma: seguir. Há propósito até nos cenários que não entendemos. Aquilo que parece perda, atraso ou sacrifício pode ser o ambiente onde Deus fala mais profundamente ao coração. Não se trata de entender tudo, mas de permanecer. Não se trata de comparar, mas de confiar.
Permanecer em Cristo é essencial, porque o ramo não vive longe da videira. Tudo o que é terreno fica, mas aquilo que é espiritual permanece para a eternidade. Por isso, somos chamados a renovar diariamente o compromisso, como quem assina todos os dias um pacto de entrega: viver para Ele, crescer na palavra, fortalecer o espírito e deixar que o amor de Deus transforme a percepção das circunstâncias.
Esse chamado também se estende àqueles que ainda não experimentaram esse relacionamento. É necessário nascer de novo, receber a Cristo, permitir que Ele entre e transforme o interior. Não é sobre religião, mas sobre vida; não é sobre aparência, mas sobre um encontro real que muda a trajetória. Ao receber Jesus, deixamos de ser apenas criação e passamos a viver como filhos, conduzidos por um relacionamento vivo com o Pai.
Assim, seguimos, não olhando para os lados, mas fixando os olhos naquele que nos chamou. Seguimos com fidelidade, mesmo quando não entendemos, certos de que nada do que é feito em Cristo é em vão. E, no fim, o que permanecerá não são as comparações nem as conquistas terrenas, mas o amor que carregamos e a decisão diária de permanecer nEle até o último dia.